29.09.2008 / Rua do Crucifixo
Mesmo depois de lá ter passado uma vez ou outra, eu não sabia onde era a Rua do Crucifixo até ao dia em que abriu a estação da Baixa / Chiado. É assim que certas ruas ganham notoriedade. Da placa de mármore discreta, no topo de uma esquina, vêem de repente o seu nome figurar numa daquelas placas coloridas e proeminentes que indicam as saídas nas estações do Metro.
Algumas ruas até se podem arrogar a sonhar com o seu nome nesse tipo de letra moderno, grande e legível como poucos. Parece-me, no entanto, que a Rua do Crucifixo nunca sonhou com tal glória. É uma rua discreta e pacata, que muitos atravessam mas poucos percorrem.
Podia dizer-se que sofre de um complexo de inferioridade em relação às outras ruas da baixa, maiores e mais elegantes, tão cheias de comércio e de gente. Mas na verdade, pressente-se um certo orgulho em não pertencer ao circuito turístico: ali não se passeia. Quem lá vai tem uma intenção. Uns ali trabalham, outros vão comprar meias às riscas e piercings na loja dos góticos, encadernar trabalhos na Fernandes, outros ainda almoçar o que em tempos foi o famoso bife do Palmeira.
Mesmo à boca do metro há uma pastelaria daquelas em que o balcão repleto de bolos e salgadinhos ocupa mais espaço do que as mesas. Um dos empregados mete sempre conversa com os clientes. Tenta ser engraçado e faz questão de nos relembrar que ali, os bolos ainda têm um preço decente, longe dos abusos da Rua Augusta e do Rossio.
Não, a Rua do Crucifixo não é cá para turistas. Por isso deve ter estranhado tanto quando viu o nosso grupo alongar-se por ali, nariz no ar, bloco na mão. Coisa nunca vista por aquelas bandas, uma excursão! E se, na verdade, a rua não tem olhos, pelo menos o cão fechado na pequena mercearia não deixou de ladrar a sua surpresa.
Não caíu o Carmo e a Trindade, nesse início de noite, porque não éramos de facto turistas. Apenas aprendizes, em visita de estudo. E até nós, visto o que havia para ver, rapidamente nos retiramos para as paragens mais pitorescas da Rua Nova do Almada, com o seu pátio cheio de histórias e personagens do tribunal, com a sua limonada da merendinha, com a sua livraria à parisiense.
Se o pudesse fazer, a Rua do Crucifixo teria certamente encolhido os ombros ao ver-nos partir. E teria soltado um breve suspiro, quem sabe de tristeza, quem sabe de alívio.





Querida «aluna»
É mesmo isto. «Ceci c’est la». Por falar nisso, procura esse bistrot homónimo (julgo que fica na Spring St) e come um croissant com chocolate por mim. Se for o teu dia ainda encontras o Vincent Gallo. É assíduo, e não morde donzelas. Have a nice stay up there uptown girl.
bijoux Tiago
Tiago Salazar | 02.10.2008